quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Friends

Sweet dreams are made of this... Vamos ouvir...hoje a TSF em directo pelas 19:00!

Ao contrário do que nos tentam vender alguns novos "gurus" do SL quando escrevem manifestos e updates a olhar para o umbigo, aqui... mesmo sem o acordo prévio de todos os membros, procuramos publicar e divulgar as actividades e o trabalho dos outros "sims" e de todas as instituições que desenvolvem um trabalho cultural sério na SL. Na divulgação da língua e culturas de expressão portuguesa,independentemente das simpatias ou amizades que nos unem. Sem ter medo de ser diferentes assumindo o risco de desagradar a alguns. É essa a nossa escolha e é essa a nossa vontade!

O "City Lights " é um projecto que nasceu em Portucalis. É lá que mantêm o centro das suas actividades. O que não quer dizer que não se associe a outras iniciativas quando entender, desde que essas caibam nos objectivos "limitados" da sua missão...uma "comunidade de leitores"!

Quer juntar e não excluir, quer promover e valorizar (instituições e pessoas) aqueles que têm colaborado connosco. Foi nesse sentido que resolvemos convidar mais gente e instituições que nos têm apoiado com a sua boa vontade e o seu trabalho. É o que acontece hoje com a Academia Portucalis, A Livraria de Owl's e o Tagus/CCV,e o que esperamos que aconteça no futuro com todos os outros que se encaixem no projecto que queremos desenvolver . São bem vindos. (felizmente aqui o que vale são as pessoas e os lindos muito pouco).

Outras pontes e outros projectos vão-se realizar este ano na medida do possível "que o engenho e arte não nos abandonem"... mas sem nunca abdicar do "olho míssil" que nos orienta. Nâo queremos tudo... Mais vale fazer menos mas bem...é assim que somos e não estamos dispostos a concorrer a imediatismos mediáticos que não têm nada a ver com os nossos objectivos. Queremos apenas ser respeitados pelo nosso trabalho...e mais nada! Quem gosta fica..quem não gosta vai embora.

Estamos agora a ler "Um estranho numa terra estranha", do Robert Heinlein, o livro do mês para conversar em local e dia ainda por confirmar. Desta vez e sem grandes confusões...convidámos a Elora que fará a sua "estreia" como moderadora, juntando novos atributos e competências ao seu largo CV de formadora, de "bartender", amiga que todos conhecemos, aprendemos a apreciar e a respeitar.

Aos outros nossos amigos e companheiros nesta viagem fica apenas uma certeza...será sempre bem vindo quem vier por bem!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Lhasa la Mexicana

Intervalo Musical

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Viver é apenas um calafrio

Viver é apenas um calafrio

Sou velha por fora e nova por dentro
o coração ao centro
é um músculo desgraçado
mal feito e mal apelidado
bombeia apenas o sangue
ás vezes fica exangue
de tanta e tonta correria
não mudei a fisionomia
deste mundo em desvario
viver é apenas um calafrio
no rol eterno das gerações
sofro de más digestões
por via do noticiário
de más notícias é vário
esquece e esconde todo o bem
Esquece os poetas também.

Quem o diz é Manuela Nogueira.
Quem é ela?
Encontrei aqui uma óptima descrição:

Sobre esta poetisa,

"Ninguém hoje duvidará que os genes desempenham um papel essencial na nossa vida física e mental. Manuela Nogueira recebeu uma pesada herança. Pesada, porque avaliada a peso de oiro da genialidade. Porém, com modéstia exemplar nunca se quis valer desse privilégio ao publicar em 1962, o seu primeiro livro de contos e pouco depois mais dois livros destinados à infância."
Manuela Nogueira nasceu em Lisboa na R. Coelho da Rocha, onde está, hoje, a Casa Fernando Pessoa. Sim, de facto, aí viveu o Poeta, e foi aí, que durante os primeiros 10 anos da sua vida, Manuela Nogueira conviveu com Fernando Pessoa, afinal seu tio. E volto a recorrer a palavras de Maria Isabel Soares: Só nas últimas décadas, quando os estudos pessoanos ganharam maior incremento, é que Manuela Nogueira se viu convidada a testemunhar vivências familiares, o que tem feito através de conferências e encontros em bibliotecas municipais e em escolas, para um público adulto e juvenil. Igualmente a coligir documentos inéditos, quer literários quer iconográficos do Poeta, os quais vêm sendo publicados e muito contribuem para o conhecimento biográfico de Fernando Pessoa."

E esta senhora, "velha por fora e nova por dentro" vai juntar-se a nós num mundo virtual para falar sobre aquilo que todos querem ouvir: como foi viver com um dos melhores poetas de sempre da literatura portuguesa. Vai ser no próximo sábado, dia 7 de Fevereiro, às 15h, na ilha Babel Project II. Quem preferir pode sempre ouvi-la pessoalmente, na Biblioteca de S. Domingos de Rana, em Cascais, no mesmo dia, à mesma hora. E como não podia deixar de ser...seja na vida real ou virtual, estamos todos convidados.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ser ou não ser...

Começar por usar Shakespeare é sempre bem
Mas na realidade este post nem sequer é sobre Shakespeare...
É sobre um poema que me chegou às mãos como sendo de Neruda. O que não quer dizer que seja, pois circula por aí alguma celeuma sobre se a sua autoria não será antes da jornalista brasileira Martha Medeiros.
Seja como for a versão que chegou às minhas mãos foi em castelhano e gostei dela...
Por isso aqui vai.

Muere lentamente quien se transforma en esclavo del hábito, repitiendo todos los días los mismos trayectos.
Quien no cambia de marca, no arriesga vestir un color nuevo y no le habla a quien no conoce
Muere lentamente quien hace de la televisión su gurú.
Muere lentamente quien evita una pasión, quien prefiere el negro sobre blanco y los puntos sobre las “íes”a un remolino de emociones, justamente las que rescatan el brillo de los ojos, sonrisas de los bostezos, corazones a los tropiezos y sentimientos.
Muere lentamente quien no voltea la mesa cuando está infeliz en el trabajo,
quien no arriesga lo cierto por lo incierto para ir detrás de un sueño, quien no se permite por lo menos una vez en la vida, huir de los consejos sensatos.
Muere lentamente quién deja escapar un posible amor, con tal de no hacer el esfuerzo de hacer que éste crezca.
Muere lentamente quien no viaja, quien no lee, quien no oye música, quien no encuentra gracia en si mismo.
Muere lentamente quien destruye su amor propio, quien no se deja ayudar.
Muere lentamente, quien pasa los días quejándose de su mala suerte o de la lluvia incesante.
Muere lentamente,quien abandonando un proyecto antes de empezarlo, el que no pregunta acerca de un asunto que desconoceo no responde cuando le indagan sobre algo que sabe.
Evitemos la muerte en suaves cuotas, recordando siempre que estar vivo exige un esfuerzo mucho mayor que el simple hecho de respirar.
Solamentel a ardiente paciencia hará que conquistemos una espléndida felicidad.

e agora acrescento eu
viva la vida

sábado, 31 de janeiro de 2009

Boa noite Sr. Soares: o momento da verdade

.
A tarefa não se adivinhava fácil. Gerar um debate interessante em torno da misteriosa figura do Sr. Soares? Caramba! Chega-se ao fim do livro sem conhecer de facto o Sr. Soares, vamos falar de quê? Dos heterónimos de Fernando Pessoa, quando a maioria das pessoas tem péssimas recordações dessas aulas de português. A culpa não será do Pessoa, mas debates literários e teóricos não devem fazer uma discussão muito animada, quando se quer um grupo de leitura informal...

Pronto, estava oficialmente preocupada. Felizmente estava enganada. É que o Sr. Soares estava rodeado de personagens tão interessantes, que depressa se gerou uma enorme conversa em torno dos defeitos e feitios destas figuras que desfilavam ao lado do protagonista. Desde o senhor que adorava comer, ao sonhador-viajante que era o António, à sua família, da pobre da irmã ao intragável cunhado, do primo brasileiro pé-descalço armado em ricaço e à sobrinha que só com cinco anos, revela um humor negro extraordinário; todos foram tema de conversa que deu pano para mangas. E aquela Lisboa onde viviam, tão bem caracterizada pelo autor, fez-nos imaginar a caminhar pela rua dos Douradores e a espreitar para o escritório do Sr. Soares. Lá estava o calendário da Senhora do decote com os seus lábios vermelhos e o barquinho de papel que ele fez para o António…

Ainda houve tempo para discutir qual dos Heterónimos do Pessoa, era mais normal, sem claro, conseguirmos chegar a conclusão alguma… Assim nos despedimos do enigmático Sr. Soares e passamos a discutir o senhor que se segue. Venha o “Estranho numa terra estranha”!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Um convite literário

Não posso dizer que não me surpreendeu. Primeiro, porque já fui muito mais devoradora de livros do que sou hoje. Depois, por ter confessado a um dos fundadores que não tinha lido os últimos livros dos encontros...Bem, confesso. Consegui não ler nenhum dos livros dos encontros City Lights. Gosto de lá estar a ouvir...mas raramente participo. E acrescento alguns livros na lista.
Mas sei que ainda não perderam a esperança por mim: os conselhos da linda Poulana ajudaram, e agora o convite que me fizeram para participar neste blog (e que muito agradeço) foi sem dúvida mais uma tentativa de me faze ver (novamente) a luz da literacia.

Por isso agradeço imenso ao Fokas e à Hopes o convite, prometo que vou (tentar) me portar bem e espero que dê frutos esta parceria literária.

E sem me querer alongar muito porque este post tem de ser, no mínimo produtivo, vamos ao que interessa.

Bem sei que os temas e livros debatidos até agora são muitos, e outros tantos os propostos. Por isso o meu desafio é outro. Sem querer ligar a grandes génios da literatura, a grandes autores conhecidos, a eternos autores e grandes obras. Que tal dizer aqui somente os 3 últimos livros que pegaram, com vontade de ler? Atenção que não vale folhear um livro na livraria. Também não valem revistas. Tio Patinhas, Tintim ou Lucky Luke pode ser. São livros de banda desenhada mas são livros :P

Quanto aos meus...pois tenho de pensar um bocadinho. Ultimamente uma série de sugestões fizeram com que começasse a ter uns quantos à cabeceira. Resta saber quais vou acabar de ler primeiro ;)...

Obrigado de novo Hopes e Fokas. Muitos parabéns pelo City Lights...

e boas leituras a todos!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um Estranho numa Terra Estranha

Um Ser Humano criado por marcianos retorna à Terra no inicio da idade adulta, para se deparar com costumes, valores e situações sociais que lhe são estranhas.
Para além de ser um excelente argumento de um filme rasca de ficção cientifica, este livro é também um dos clássicos da ficção cientifica, e empresta-nos a objectividade possivel para a análise de uma sociedade em mudança, no início dos anos 60.
Em contraste com as sociedades imaginadas de Huxley e Orwell, Heinlein traz-nos uma análise da sociedade em que viveu por um ser imaginado. Uma fantasia cientifico-hippie cheia de clichets e lamechices. Atrevem-se?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Boa noite, Sr. Soares - um resumo


Na véspera de mais um encontro City Lights, fica um resumo do "Boa Noite, Sr. Soares":


«Mário Cláudio escolheu para personagens alguns nomes que surgem no Livro do Desassossego, e passo a citar: «Se houvesse de inscrever […] a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório.»

Para narrador da história Mário Cláudio escolheu o moço do escritório, António, talvez por ser o mais novo, o mais ingénuo e por isso mais capaz de ser tocado por aquele ser estranho com quem convive à distância no escritório do patrão Vasques.

Em Boa Noite, Senhor Soares recebe um nome completo — António da Silva Felício — e é um jovem acabado de chegar da província, mais precisamente de Escalos de Cima, concelho de Idanha a Nova, para se empregar como aprendiz de caixeiro no escritório de um armazém de venda a retalho da baixa lisboeta, na prosaica Rua dos Douradores, onde o senhor Soares é tradutor.

Com a simplicidade própria de quem nada conhece, António tudo e todos observa com atenção. E limita-se a descrever o que presencia, como se o fizesse quase apenas para si próprio, sem emitir juízos. Desde o primeiro momento que o rapaz fica preso à figura do Senhor Soares que, segundo diziam os seus colegas, «embora não se distinga de qualquer outro sujeito, a verdade é que deu sempre mostras de ser um bocadinho esquisito»

No escritório todos sabem que escreve e que é poeta, e sem que António compreenda bem porquê, o certo é que goza de um estatuto especial. Incluindo para o patrão Vasques e para o guarda-livros, o senhor Moreira, que teoricamente ocupa o lugar de chefe do tradutor, mas aceita de bom grado a alcunha de Dom Barómetro que o senhor Soares lhe atribuiu devido à constante preocupação do guarda-livros com as condições atmosféricas.

Ao inserir-se no seu pequeno círculo de relações, António relata pormenores da vida de cada um, sobretudo aqueles que se vão tornando motivo de conversa dos outros. E desenrola perante o leitor um tecido urbano pardo, onde tudo remete para uma Lisboa murcha e tristonha, fechada sobre si mesma, onde nada acontece, nada é dramático, nem exaltante. Uma Lisboa onde o tempo não corre e, cito, «o dia seguinte seria de trabalho, igual aos da semana anterior, e da próxima» (p. 31), e em que uma mediocritas nada áurea todos invade. Todos não. Um ser escapa, um ser especial, que suscita a curiosidade do rapaz, por motivos que ele próprio não entende.

E à medida que avançamos na leitura, a fantástica mestria de Mário Cláudio vai-nos permitir (a nós, seus leitores) apreciar o modo como o rapaz se deixa tocar pela personalidade daquele enigmático senhor Soares. O leitor só tem acesso ao discurso interior do rapaz, que revela a sua total candura, a dificuldade em interpretar a sua própria experiência e os sonhos de viagens que não fará.

Gradualmente, a figura do Senhor Soares transforma-se no principal foco da atenção do jovem António e aquele adulto com quem nunca conversa, aquele senhor que só à saída dirige a palavra ao colectivo rapazes do escritório para lhes dar as boas noites, vai ser a figura de referência da sua juventude privada de projectos, de perspectivas e de formação.

(...) De repente, vira-se a página e passaram 52 anos. António recorda vagamente a cidade, o seu antigo local de trabalho, os sons que já não se ouvem… mas o que evoca com mais nitidez é o Senhor Soares, que tão mal conhecera e que afinal tanto o marcara. A sua vida é um arco entre a juventude e a velhice. Como na epígrafe de Shelley que abre o livro: «Youth will stand foremost ever» («A juventude permanecerá para sempre, acima de tudo»).»


Emílio Rui Vilar, publicado em 9.9.2008 na secção Recensões Críticas. Mário Cláudio — Boa Noite, Senhor Soares. Lisboa: Dom Quixote, 2008.

Entrevista a F. Pessoa

Palavras ditas por Mário Viegas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Boa Noite, Senhor Soares


"A minha maior surpresa aconteceu porém numa tarde em que estávamos apenas os dois no escritório, e o Senhor Soares saiu sem uma palavra, deixando-me sobre a secretária uma barquinho de almaço pautado, e com este nome no casco, desenhado a lápis, António.

("Boa Noite, Senhor Soares", Mário Cláudio, 2008).

"Absurdo

Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas faloas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O Absurdo é o divino."

("Livro do Desassossego", Bernardo Soares).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Numa cegueira branca...

.
Diria que foi o momento alto do City Lights, a discussão em torno do "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago. Não só o debate ultrapassou a temática do livro, saltou para as nossas vidas e para a debilidade da nossa condição. Para além de uma conversa deliciosa, tiramos o máximo partido do SL e conseguimos recriar uma cegueira branca, com o precioso contributo do Imso, da Elora e da Poulana. Foi uma surpresa agradável para todos.

Um livro sobre a condição humana trazia forçosamente pano para mangas. Era inevitável questionar se a falta de ética e a desumanidade que começa a grassar entre os cegos, se devia apenas à catástrofe que se abateu sobre eles e à necessidade de sobreviver. Cada um de nós questionou o que faria para sobreviver, quais os nossos limites, o que seríamos capazes de sacrificar. Falou-se de dignidade e de impunidade. As escolhas das personagens foram criticadas por uns e elogiadas por outros.

Como o Narrador do livro, fomos juízes, advogados do diabo, desculpámos, julgámos e explorámos a consciência moral das personagens. Se o drama das personagens nos tocou, também nos emocionou a fragilidade do que damos por adquirido. E da condição humana, impressiona-nos o facto do gesto de maior compaixão no livro vir de um cão e não de um ser humano... Acho que todos exploramos os recantos da nossa alma, naquele dia, os nossos pontos fortes e as nossas fraquezas. Através de um livro e de uma boa conversa, ficou mais claro para todos o que é isso de ser humano...


Capitu Musica tema

Não é só ler o Dom Casmurro.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Capitu


"Saber ler e escrever, vestir casaco e gravata, ter estudado e vivido na cidade, já nada serve. Só os bruxos são capazes de perceber o que se passa" Mário Vargas Llhosa (Lituma nos Andes).


Mas posso escrever um post por exemplo: " A noite está estrelada e fria e nos teus olhos verdes, tiritam os astros lá ao longe." Posso até tentar escrever versos tristes esta noite: "Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já. Importa-me lá que o meu amor não a podesse guardá-la. A noite está estrelada e ela não está comigo mais.
Como aficionado ainda podia escrever outras frases, umas linhas de despedida para a Marcia, dignas de um aficionado, de um aficionado da loucura. "Vou-me embora, querida, porque noto que envelheço e não posso suportá-lo. Além disso acho que estou acabado e as minhas depressões acentuaram-se muito ultimamente". (fingo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo...é tudo mentira).

Mas se não tivesse ido lá... a Marcia não me deixaria voltar a casa. Depois de tantos anos, ali estava no mesmo local, desta vez ao som do Bob Dylan.
- Estás aqui há muito? Há uns sete meses...respondi-lhe mas durante esse tempo numa livraria...descobrem-se muitas coisas. Estava à espera que viesses.
- Como é ele o Senhor F. ( o dono)? Ele vem à loja de vez em quando?
- Normalmente vem todos os dias - respondi-lhe. (Eu já sabia quem ela era... não devia ter mais do que 30 anos).
- Sou a Capitu. Ele escreveu-me e pediu-me para aparecer... Parece que vão ler no "City Lights" o Dom Casmurro na SL.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Francesinhas


Teria sido mais simples se tivessem escolhido a Duras. "O Amor". Sim...esse eu li.... como devorei depois todos os outros livros dela. Sabes Fokas... quando fui para o Porto tinha 15 anos. Podiamos entrar em Belas Artes com essa idade. A idade dos sonhos...

Ou a Françoise Sagan...a minha mãe entre os livros de medicina tinha escondido o "Bonjour tristesse" com uma dedicatória enigmática que só entendi muitos anos depois . "Até ao fim do mundo"...Nazaré, Verão 1955.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

"A obra ao Negro"...ou as saudades de Isabella

Aqui começámos a delirar...Não sei quem é a Yourcenar -disse ela. Pertenço a uma geração que já não lê francês... A minha sócia tem alguma razão. Estamos a assistir a um novo paradigma cultural neste início do século XXI. A vitória dos Obamas Bin Socrates.

A literatura portuguesa começou a guinar depois de 1978, ano em que morreu Jorge de Sena e Ruy Belo. Alguns alunos da Faculdade de Letras de Lisboa convocavam para o bar uma conferência com o falecido há umas semanas nos Estados Unidos...mas que mesmo assim teve público! Nesse ano foram publicadas pelaa primeira vez as obras completas do António Maria Lisboa e redescobriamos "a Intrevenção Surrealista" com um lag de 30 anos.

O Carlos de Oliveira (sim... o da "Abelha na chuva "daquele filme horrível do Fernando Lopes) publicava então o "Finisterra". O Saramago ainda não tinha tinha publicado os "Levantados do chão" mas estava fechado o trajecto oficial do Neo-realismo em Portugal.

O Eduardo Lourenço iniciava com "o Labirinto da Saudade" a psicanálise mítica do povo português.

O Francês tinha deixado de ser a primeira língua estrangeira obrigatória no sistema de ensino em Portugal.

Pertenço a uma geração ainda marcada pela palavra de ordem "sur le pavé la plage", primeira língua que aprendi na escola (o inglês era débil..e resumia-se a umas canções...she loves me , o alemão mínimo...meine liebe Anette...e o castelhano inexistente...mira guapa que és muy preciosa...) não entendo este anti-francesismo actual que olha o umbigo e se crê no centro da modernidade. A França representou para mim o encontro, a assimilação e a diversidade...uma cultura francófona que ultrapassava largamente as dimensões do hexágono gaulês. Há autores cuja notoriedade passou por escreverem em francês, de Kundera a Tahar Ben Jelloun...como ainda recentemente com o americano Jonathan Littell que escreveu "As benevolentes" na língua de Voltaire.

A Hopes alegando falta de tempo passou-me a bola... Moderas tu..não foi afinal outro dos livros da tua vida? Pas de problem Komrad! Se houve livros que li mais que duas vezes na vida... um deles foi as "Memórias de Adriano" revelada tardiamente por um amigo especial.
Uma noite sózinho em Bruxelas... e não parava de chover... toca o telefone.
- Olá..lembraste de mim? Encontrámo-nos na praia este Verão. Sou primo do... Queres vir beber um copo a minha casa? Já tentei subir as paredes...já me tentei atirar do quarto andar ..mas tenho medo...estou muito sózinho. Começou aqui outra nova amizade do Corto Maltese e a descoberta da Marguerite Yourcenar.

Mas um dia vou voltar para fazer de novo o elogio da bela Marguerite Yourcenar que era belga como o Brel, do Godard que era suíço, da Isabelle Adjani e da Carla Brunni que como toda a gente sabe são francesas.

Mas para quem quiser mesmo conhecer “A obra ao negro”, de Marguerite Yourcenar, fica aqui um resumo bem feito, por Luís Miguel Queiroz.

"O percurso de Zenão, no pano de fundo da Europa da primeira metade do século XVI. Uma obra-prima em nada inferior a “Memórias de Adriano”, o romance que celebrizou Yourcenar.
Poucos dias antes de rebentar, em Paris, o movimento de contestação estudantil de Maio de 1968, aparecia nas livrarias francesas um livro intitulado “A Obra ao Negro”. No meio de uma tal agitação, que tomava as ruas e monopolizava os “media”, parecia haver bons motivos para duvidar do êxito de um romance de fundo histórico, cuja acção, narrada numa escrita exigente e quase anacronicamente “clássica”, decorria no distante século XVI.
A própria autora, Marguerite Yourcenar, numa carta dirigida, em 1964, ao editor Gaston Gallimard, confessava-se apreensiva: “Pensei escrever as ‘Memórias de Adriano’ para dez pessoas, e enganei-me. Creio neste momento terminar ‘A Obra ao Negro’ para dez pessoas e é muito possível que não me engane.”
Na verdade, voltou a enganar- se. Em apenas dois meses, a Gallimard esgotou duas tiragens, num total de 40 mil exemplares. Os críticos, descontadas raríssimas excepções, não lhe pouparam elogios. Muitos falaram de “obra-prima”. Apenas um ou outro se lamentou de “falta de calor”. O que talvez possa ser lido como um involuntário elogio, já que é justamente pela sua deliberada e impiedosa rasura de todo o sentimentalismo que este livro consegue emocionar tão profundamente os seus leitores.
Constituindo um espantoso fresco da Europa do século XVI — das intrigas políticas às querelas religiosas, da filosofia à vida quotidiana, da cultura literária às discussões científicas —, “A Obra ao Negro” é também a história pessoal de Zenão, o filho bastardo de um grande negociante de Bruges, cujo pai, que não chega a reconhecê-lo, era ainda aparentado com a poderosa família dos Médicis.
Médico, filósofo e alquimista, podem ver-se na vida de Zenão, embora o romance não o assuma expressamente, as etapas da Grande Obra alquímica, com os seus momentos de decantação, dissipação e sublimação. O objectivo da alquimia, reclama a tradição, era o de transformar o próprio alquimista. A transmutação dos metais constituía apenas o seu fito aparente, a face visível de uma operação interior. Logo no primeiro capítulo deste romance, sintomaticamente intitulado “O Longo Caminho”, Zenão despedese de um primo, dizendo-lhe: “Há alguém à minha espera. Vou até lá.” Pergunta o interlocutor: “Quem é?” E Zenão responde: “Hic Zeno. Eu mesmo.”
No entanto, desenganem-se os fãs de Paulo Coelho, este não é um desses romances que pisca o olho aos fascinados pelo oculto. Zenão, sem deixar de ser o produto complexo do século em que vive, prefere investigar “os movimentos diastólicos e sistólicos do coração”, do que perder o seu tempo a discutir os atributos de Deus ou a procurar uma saída no labirinto alegórico dos filósofos alquímicos.
O pintor e cientista visionário Leonardo Da Vinci, o cirurgião Ambroise Paré, o anatomista Vesálio, o médico e alquimista Paracelso e, talvez mais do que todos, Erasmo de Roterdão, são algumas das figuras históricas com as quais poderemos ser tentados a identificar Zenão.
Num apêndice que redigiu para o livro, Yourcenar admite estas e outras influências, mas alerta que não pretendeu “compor mecanicamente uma personagem sintética, coisa que nenhum romancista consciencioso aceita fazer”. De facto, poucas personagens na história da literatura conseguem ser tão “reais” como Zenão.
Se quisermos resumir este livro, o melhor ainda será citar a própria Yourcenar, na já referida carta a Gallimard: “Trata-se da vida movimentada, mas também meditativa, de um homem que faz total tábua rasa das ideias e preconceitos do seu século para ver depois onde o seu pensamento o conduzirá livremente.”

A Kua que tinha proposto este livro para discussão não apareceu. Mas temos fotos para mostrara que a sessão na Academia Portucalis que nos recebeu..estava cheia de leitores!