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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Os cem anos a grocar e a inventar futuros

A net tem destas coisas quando funciona... Aqui vão algumas linhas escritas há pouco tempo...pelos 100 anos do nascimento de um dos grandes mestres da FC no "Diário de Notícias".

Na sua esmagadora Encyclopedia of Science Fiction, Peter Nicholls chama a Robert A. Heinlein "de longe, o mais influente escritor da ficção científica americana moderna".

Poderíamos até ir mais longe. Heinlein, que nasceu faz hoje 100 anos, é, juntamente com o seu compatriota Isaac Asimov, e com o britânico Arthur C. Clarke (o único ainda vivo do trio), um dos três maiores escritores da história da ficção científica (FC). Mercendo plenamente, tal como os outros dois, o título de Grande Mestre que lhe foi concedido em 1975 pelos seus confrades da Science Fiction Writers of America.

Nascido em 1907, com o início do século XX e o grande ímpeto tecnológico que o havia de caracterizar, Robert A. Heinlein foi um dos escritores que mais contribuiu para a maturidade, sofisticação temática e para o aumento da qualidade literária da FC. Fê-lo através da solidez técnica e da plausibilidade inatacável da especulação científica dos seus enredos; da ênfase que dava ao elemento humano sem descurar a inventividade técnica; e da variedade de temas sociais, políticos, culturais, religiosos e civilizacionais que tratou, deixando sempre bem vincadas a sua personalidade individualista na melhor tradição americana, e o libertarismo das suas ideias.

Este "anarquista de direita", como bem o definiu o citado Peter Nicholls, que começou a sua vida muito mais à esquerda, foi tudo menos um conservador dentro do género, tendo abordado assuntos como o racismo, a discriminação, o totalitarismo, a religião ou a sexualidade, antes e com mais profundidade e pertinência do que a literatura mainstream.

Grande inventor de futuros que também remetiam ao presente e podiam estar ligados ao passado, Robert A. Heinlein era um clássico que sabia também ser moderno, inovador e iconoclasta, capaz de assinar tanto Soldado no Espaço (1959), o elogio da cidadania realizada através do serviço militar e uma grande narrativa de iniciação à vida através do combate, que lhe valeu o rótulo de "fascista", como Não Temerei Nenhum Mal (1970), em que um velho milionário faz transplantar o seu cérebro para o corpo de uma jovem mulher, que deixou perplexos os seus amigos e admiradores mais conservadores. E isto sem que as narrativas sacrificassem a legibilidade, perdessem o seu alto valor de entretenimento ou virassem panfletos.

Heinlein viu inclusivamente um dos seus livros mais conhecidos e aclamados, Um Estranho Numa Terra Estranha, de 1961, transformar-se numa obra de referência pelo movimento contracultural americano, alguns anos mais tarde, tornando-o num guru de pessoas cujas ideias e comportamentos execrava, devido à sua formação militar e às suas convicções ideológicas.

Grande apreciador de nomes pioneiros e fulcrais da FC e do fantástico como H. G. Wells, James Branch Cabell ou Edgar Rice Burroughs, mas também de escritores como Rudyard Kipling, Heinlein cunhou palavras que entraram no vocabulário inglês, coloquial ou técnico (caso de "grok" ou de "waldo"), e foi um dos primeiros autores de FC a triunfar comercialmente na era da literatura de massas, bem como o primeiro a levar o género das revistas especializadas para os títulos mainstream.

Vencedor de quatro Prémios Hugo e várias vezes votado "o maior autor de todos os tempos" em inquéritos a leitores do género, realizados por revistas como a Locus, Robert A. Heinlein deixou uma marca única, gigantesca e indelével na literatura de FC. A Heinlein Society (www.heinleinsociety.org) preserva o seu magistral legado para o mesmo futuro com o qual construiu a sua obra.

In Diário de Notícias


07-07-2007

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Boa Noite, Senhor Soares


"A minha maior surpresa aconteceu porém numa tarde em que estávamos apenas os dois no escritório, e o Senhor Soares saiu sem uma palavra, deixando-me sobre a secretária uma barquinho de almaço pautado, e com este nome no casco, desenhado a lápis, António.

("Boa Noite, Senhor Soares", Mário Cláudio, 2008).

"Absurdo

Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas faloas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O Absurdo é o divino."

("Livro do Desassossego", Bernardo Soares).

sábado, 10 de janeiro de 2009

Francesinhas


Teria sido mais simples se tivessem escolhido a Duras. "O Amor". Sim...esse eu li.... como devorei depois todos os outros livros dela. Sabes Fokas... quando fui para o Porto tinha 15 anos. Podiamos entrar em Belas Artes com essa idade. A idade dos sonhos...

Ou a Françoise Sagan...a minha mãe entre os livros de medicina tinha escondido o "Bonjour tristesse" com uma dedicatória enigmática que só entendi muitos anos depois . "Até ao fim do mundo"...Nazaré, Verão 1955.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

"A obra ao Negro"...ou as saudades de Isabella

Aqui começámos a delirar...Não sei quem é a Yourcenar -disse ela. Pertenço a uma geração que já não lê francês... A minha sócia tem alguma razão. Estamos a assistir a um novo paradigma cultural neste início do século XXI. A vitória dos Obamas Bin Socrates.

A literatura portuguesa começou a guinar depois de 1978, ano em que morreu Jorge de Sena e Ruy Belo. Alguns alunos da Faculdade de Letras de Lisboa convocavam para o bar uma conferência com o falecido há umas semanas nos Estados Unidos...mas que mesmo assim teve público! Nesse ano foram publicadas pelaa primeira vez as obras completas do António Maria Lisboa e redescobriamos "a Intrevenção Surrealista" com um lag de 30 anos.

O Carlos de Oliveira (sim... o da "Abelha na chuva "daquele filme horrível do Fernando Lopes) publicava então o "Finisterra". O Saramago ainda não tinha tinha publicado os "Levantados do chão" mas estava fechado o trajecto oficial do Neo-realismo em Portugal.

O Eduardo Lourenço iniciava com "o Labirinto da Saudade" a psicanálise mítica do povo português.

O Francês tinha deixado de ser a primeira língua estrangeira obrigatória no sistema de ensino em Portugal.

Pertenço a uma geração ainda marcada pela palavra de ordem "sur le pavé la plage", primeira língua que aprendi na escola (o inglês era débil..e resumia-se a umas canções...she loves me , o alemão mínimo...meine liebe Anette...e o castelhano inexistente...mira guapa que és muy preciosa...) não entendo este anti-francesismo actual que olha o umbigo e se crê no centro da modernidade. A França representou para mim o encontro, a assimilação e a diversidade...uma cultura francófona que ultrapassava largamente as dimensões do hexágono gaulês. Há autores cuja notoriedade passou por escreverem em francês, de Kundera a Tahar Ben Jelloun...como ainda recentemente com o americano Jonathan Littell que escreveu "As benevolentes" na língua de Voltaire.

A Hopes alegando falta de tempo passou-me a bola... Moderas tu..não foi afinal outro dos livros da tua vida? Pas de problem Komrad! Se houve livros que li mais que duas vezes na vida... um deles foi as "Memórias de Adriano" revelada tardiamente por um amigo especial.
Uma noite sózinho em Bruxelas... e não parava de chover... toca o telefone.
- Olá..lembraste de mim? Encontrámo-nos na praia este Verão. Sou primo do... Queres vir beber um copo a minha casa? Já tentei subir as paredes...já me tentei atirar do quarto andar ..mas tenho medo...estou muito sózinho. Começou aqui outra nova amizade do Corto Maltese e a descoberta da Marguerite Yourcenar.

Mas um dia vou voltar para fazer de novo o elogio da bela Marguerite Yourcenar que era belga como o Brel, do Godard que era suíço, da Isabelle Adjani e da Carla Brunni que como toda a gente sabe são francesas.

Mas para quem quiser mesmo conhecer “A obra ao negro”, de Marguerite Yourcenar, fica aqui um resumo bem feito, por Luís Miguel Queiroz.

"O percurso de Zenão, no pano de fundo da Europa da primeira metade do século XVI. Uma obra-prima em nada inferior a “Memórias de Adriano”, o romance que celebrizou Yourcenar.
Poucos dias antes de rebentar, em Paris, o movimento de contestação estudantil de Maio de 1968, aparecia nas livrarias francesas um livro intitulado “A Obra ao Negro”. No meio de uma tal agitação, que tomava as ruas e monopolizava os “media”, parecia haver bons motivos para duvidar do êxito de um romance de fundo histórico, cuja acção, narrada numa escrita exigente e quase anacronicamente “clássica”, decorria no distante século XVI.
A própria autora, Marguerite Yourcenar, numa carta dirigida, em 1964, ao editor Gaston Gallimard, confessava-se apreensiva: “Pensei escrever as ‘Memórias de Adriano’ para dez pessoas, e enganei-me. Creio neste momento terminar ‘A Obra ao Negro’ para dez pessoas e é muito possível que não me engane.”
Na verdade, voltou a enganar- se. Em apenas dois meses, a Gallimard esgotou duas tiragens, num total de 40 mil exemplares. Os críticos, descontadas raríssimas excepções, não lhe pouparam elogios. Muitos falaram de “obra-prima”. Apenas um ou outro se lamentou de “falta de calor”. O que talvez possa ser lido como um involuntário elogio, já que é justamente pela sua deliberada e impiedosa rasura de todo o sentimentalismo que este livro consegue emocionar tão profundamente os seus leitores.
Constituindo um espantoso fresco da Europa do século XVI — das intrigas políticas às querelas religiosas, da filosofia à vida quotidiana, da cultura literária às discussões científicas —, “A Obra ao Negro” é também a história pessoal de Zenão, o filho bastardo de um grande negociante de Bruges, cujo pai, que não chega a reconhecê-lo, era ainda aparentado com a poderosa família dos Médicis.
Médico, filósofo e alquimista, podem ver-se na vida de Zenão, embora o romance não o assuma expressamente, as etapas da Grande Obra alquímica, com os seus momentos de decantação, dissipação e sublimação. O objectivo da alquimia, reclama a tradição, era o de transformar o próprio alquimista. A transmutação dos metais constituía apenas o seu fito aparente, a face visível de uma operação interior. Logo no primeiro capítulo deste romance, sintomaticamente intitulado “O Longo Caminho”, Zenão despedese de um primo, dizendo-lhe: “Há alguém à minha espera. Vou até lá.” Pergunta o interlocutor: “Quem é?” E Zenão responde: “Hic Zeno. Eu mesmo.”
No entanto, desenganem-se os fãs de Paulo Coelho, este não é um desses romances que pisca o olho aos fascinados pelo oculto. Zenão, sem deixar de ser o produto complexo do século em que vive, prefere investigar “os movimentos diastólicos e sistólicos do coração”, do que perder o seu tempo a discutir os atributos de Deus ou a procurar uma saída no labirinto alegórico dos filósofos alquímicos.
O pintor e cientista visionário Leonardo Da Vinci, o cirurgião Ambroise Paré, o anatomista Vesálio, o médico e alquimista Paracelso e, talvez mais do que todos, Erasmo de Roterdão, são algumas das figuras históricas com as quais poderemos ser tentados a identificar Zenão.
Num apêndice que redigiu para o livro, Yourcenar admite estas e outras influências, mas alerta que não pretendeu “compor mecanicamente uma personagem sintética, coisa que nenhum romancista consciencioso aceita fazer”. De facto, poucas personagens na história da literatura conseguem ser tão “reais” como Zenão.
Se quisermos resumir este livro, o melhor ainda será citar a própria Yourcenar, na já referida carta a Gallimard: “Trata-se da vida movimentada, mas também meditativa, de um homem que faz total tábua rasa das ideias e preconceitos do seu século para ver depois onde o seu pensamento o conduzirá livremente.”

A Kua que tinha proposto este livro para discussão não apareceu. Mas temos fotos para mostrara que a sessão na Academia Portucalis que nos recebeu..estava cheia de leitores!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

"Uma casa na escuridão" JLPeixoto


Já viste as minhas novas tatuagens? Sim,vamos ver!
Era preciso dar um salto em frente. A ideia partiu do Viktor.
Vamos ler o JLPeixoto! A escolha era ousada. Ambos tínhamos ficado perturbados com "Morreste-me".
Depois disso o JLPeixoto começou a escrever outras coisas. Na dedicatória que escreveu para a Elsa pedia-lhe algum cuidado, "esta casa de palavras que espero que lhe fale apenas de luz", Lisboa , 9 de junho de 2007.
"a minha casa que era aquele livro de lombada azul...era esse livro que tremia na minha mão...nunca soube porque escrevia."
Sabias sim...JL porque tu respiravas lombo e arroz e já não podias mais.

George Orwell "1984"

Depois de Huxley o idealista fomos buscar às prateleiras um escritor político e um pensador de importância. Mais uma vez nenhum de nós tinha livro o livro. A Hopes conhecia "Animal Farm" (O Triunfo dos porcos) e eu a "Homenagem à Catalunha".
"1984" é o big brother, um modelo de desenvolvimento, de um género familiar aos economistas e aos sociólogos, onde cada capítulo se encontra devidamente organizado, apresentado de uma forma lógica e estruturado como o "Leviathan" do Thomas Hobbes, a obra maior da filosofia política inglesa.
O regime no poder é de uma inteligência diabólica, uma síntese entre o estalinismo e o nazismo. "1984" está para o século XX como o "Leviathan" esteve para o século XVIII. Orwell vai escolher o romance e não um tratado filosófico para formular o conceito de totalitarismo e explicar que existiam elementos comuns saídos dos dois regimes supostamente antagónicos que se afrontavam na Europa.
Ele que tinha participado como combatente na famosa V Brigada dos voluntários internacionais que lutaram ao lado dos republicanos na guerra civil espanhola e conhecera de perto as guerras internas que tinham contribuído para o enfraquecimento e derrota da frente anti-franquista, nomeadamente as limpezas ideológicas que tinham levado o PCE à eliminação do POUM e dos Anarquistas.
Orwell foi aquilo que os professores de Oxford da altura classificaram de um espírito inconformista, rebelde e temerário. Apresentar as suas ideias sobre a forma de um romance teve a vantagem de atingir um maior número de leitores mas o inconveniente de lhe faltar alguma precisão e sobretudo a credibilidade dos meios académicos. Foi preciso esperar mais de 15 anos antes que Hannah Arendt publicasse "As origens do totalitarismo" (1951). Arendt não cita em nenhuma parte "1984", se bem que o livro antecipasse um bom número de conclusões a que ela chegou no seu enorme estudo.
"1984" foi talvez entendido como um testamento, quando o livro era mais do que uma profecia, uma antecipação do futuro e não apenas um terrível aviso. Mas isso seria confundir o jornalista e ensaista Eric Blair, com o escritor conhecido pelo nome de George Orwell.