segunda-feira, 6 de julho de 2009

A City Lights em Portucalis




A “City Lights” Bookstore em “Portucalis”. Dois anos de um projecto português na “Second Life”.

Sorrio quando me pedem para escrever sobre a “Second Life” em português e a “CIty Lights” bookstore em “Portucalis”. Que utilidade pode proporcionar um equipamento como este, em imagens de três dimensões, a uma comunidade falante de português na vida virtual? Como é que nesta nova ficção, o imaginário individual de alguns pode co-existir com a fragilidade efémera de um simples gesto, num projecto mais vasto e ambicioso de construção e coesão de um imaginário social diferente?

A livraria em “Portucalis” nasceu há cerca de dois anos pela mão e engenho do Imso Obscure e dos fundadores desta pequena comunidade, integrada num projecto mais amplo de âmbito cultural e educativo que se desenvolveu simultaneamente na ilha.

Com a “Academia Portucalis” e a “Galeria Lx” que mantêm desde a sua criação, actividades regulares e autónomas, a livraria participou no desafio de utilizar, formar e experimentar esta plataforma de comunicação que é a “Second Life”, em actividades que ultrapassam o mero aspecto lúdico.

Foi na “Livraria LX”, hoje “City Lights”, (em homenagem à mítica livraria de S. Francisco da Califórnia, fundada em 1953 por Lawrence Ferlinghetti , por onde passaram os maiores nomes da Beat Generation), que se instalou a primeira comunidade de leitura em português, uma iniciativa da Hopes&Dreams Allen e minha, mas que prontamente recebeu o apoio dos fundadores de “Portucalis”, que nos cederam as instalações existentes na altura e colaboraram activamente na divulgação deste projecto. E assim continua …

Reagindo a um certo cansaço de imagens e de sons, tem procurado experimentar neste ambiente virtual, vias alternativas para a divulgação e discussão em grupo, neste caso, de obras de literatura portuguesa e universal, procurando contribuir para a construção de um imaginário social mais rico, na “Second Life” falada em português.

A divulgação da cultura literária nesta plataforma interactiva de comunicação passa inevitavelmente pela criatividade, inovação e mudança, pelo que hoje, a Livraria “City Lights” apresenta-se noutro local em “Portucalis”, integrada num conjunto arquitectónico renovado, desempenhando desde a sua criação um elemento agregador da pequena comunidade portuguesa que participa activamente nas sessões mensais e mantendo as suas actividades regulares em parceria com outras entidades participantes nesta plataforma de comunicação.

E assim vamos continuar, “enquanto houver estrada para andar”.

Fokas Greenwood

( Artigo para a Revista Sábado)

sábado, 30 de maio de 2009

A Gramática da Língua Portuguesa

É o meu primeiro post neste blogue. Deixo um texto que recebi da minha amiga Leonor.
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Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Fernanda Braga da Cruz

Aldous Huxley - Doors of Perception

Antes de entrar na Sombra do vento....

quinta-feira, 28 de maio de 2009

sombra do vento - memória


Comprei o livro ainda fresquinho no escaparate e ofereci-o de prenda de anos a um bom amigo. Leu e gostou muito. Depois pedi-lhe o livro mas a namorada andava a lê-lo e a gostar e já havia mais alguém na fila para a leitura do dito.
Meses mais tarde passeando o olhar pela biblioteca do sogro, descobri o livro, novinho em folha, arrumadinho para não mais sair dali. Resgatei-o e ao pedir licença para o “usar” o senhor disse-me que o livro era muito erótico … e até obsceno, com muitos palavrões. Isso aguçou-me a curiosidade … claro está.
Li-o de um sorvo … e fui a Barcelona umas semanas depois. Não encontrei o Carax, nem soube quem era o Daniel, muito menos descobri o cemitério dos livros, mas andei atenta a cheirar a cidade e os seus muitos mistérios. Andei à procura de dias de vento … mas o sol teimou em brilhar … e do vento, nem a sombra se via.


Linhas e páginas para descobrir com uma história bem esgalhada.

P.S. Não devolvi o livro ao sogro, nem o tenho arrumado, porque continua a passear por aí … qual vedeta de bookcrossing.

Para Junho … com as controvérsias que quisermos e que a Hopes permitir …

sábado, 16 de maio de 2009

Porquê "O Deus das Moscas"?


Escrito durante os primórdios da Guerra Fria e publicado em 1952, "O Senhor das Moscas" retrata a conflitualidade do pós-guerra, pois a história começa com a queda de um avião que tinha deixado a Inglaterra após um bombardeamento nuclear. Deste acidente, apenas um grupo de crianças sobrevive e, para serem resgatadas, elas estabelecem uma frágil sociedade "democrática". Entretanto, a luta pela liderança divide esta comunidade e instaura um violento conflito entre elas.

Esta obra de Golding pode ser interpretada sob várias perspectivas. Como uma analogia da luta entre a democracia, na qual todos podem ter voz, mas que, por outro lado, as decisões são arrastadas e controversas, e a ditadura, na qual um tirano estabelece um sistema hierárquico baseado na punição e no medo.

Entretanto, há uma mensagem mais profunda em "O Senhor das Moscas", já que ela pode representar os conflitos dentro da própria mente humana. Ralph é a consciência, porque todos seus esforços são o de manter a coerência no seu discurso e acções e de agir da maneira mais correcta para serem resgatados; Porquinho é a racionalidade; Jack, os instintos animalescos e primitivos; Simon, a contemplação e intuição. No fundo, Golding afirma que estas contradições não existem somente no interior de uma sociedade, cujo resultado extremo é a guerra, mas também no interior do próprio indivíduo.

E dito isto, penso que teremos pano para mangas... Um debate prometedor na última segunda-feira de Maio. A não faltar!

sábado, 2 de maio de 2009

feriados com cor


Têm uma especial cor estes feriados de Abril e Maio.

Vestem-se de cores e cheiros, com sabor a tempos que já foram, continuam a ser...e serão ainda...Primaveras por inventar.

Vestem-se de cores várias, canções várias e quando o Domingo chegar ... ficamos à espera das cores e dos cheiros dos feriados de Junho...bandeirinhas com mais cores, discursos mais da nossa "pátria", cheiros da "fátria" adormecida e acordada pelo sol que teimosamente vai brilhando. Depois virão os cheiros das sardinhas, as cores das marchas e os festejos da cidade, que agora ainda se veste de livros e curtas.

E eu ainda apaixonada por esta Lisboa! E eu ainda apaixonada!

A City Lights Bookstore estará pronta para albergar novos eventos daqui a nada. (Diz o Fokas que é sábio ...:-)
Estou só a respirar os cheiros instalados e a adivinhar vaidosa os que se avizinham. E gosto de ciclos reinventados.

Até ao Deus das Moscas!

poulana

terça-feira, 28 de abril de 2009

Na Prisão de Caxias

Dizia-me uma colega ter ouvido o seguinte comentário nas reuniões onde aparecia.: Ah, é então bibliotecária, que simpático...Mas diga-me :como é isso de ser bibliotecária? Pergunta a que ela respondia invariavelmente. "É sobretudo uma questão de dinheiro e de poder". " A GOOGLE E A BIBLIOTECA UNIVERSAL," In Le Monde diplomatique, versão portuguesa de Abril de 2009.

Sim... e enquanto houver estrada para andar nós vamos continuar! E prometemos ser rápidos com as obras!

domingo, 26 de abril de 2009

Em Abril não há "Moscas" no City Lights


Abril foi mês de várias comemorações no SL em Portucalis às quais nos associámos.
E com mais ou menos problemas não só informáticos lá estivemos presentes. Acontece que para além destes existem outros de ordem pessoal que nos impedem de levar a sessão de segunda-feira no dia habitualmente combinado, a última de cada mês. E porque sexta-feira é 1º de Maio, a sessão vai ser definitivamente adiada para o final do mês. Pedimos desculpa a todos os nossos leitores mas "O Deus das Moscas" do William Golding vai esperar por dias mais calmos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Serão as mulheres mais benevolentes?

Olha..fui à procura do horrível e deparei com este teu video. Voltamos sempre ao local do crime... de onde parece que nunca saímos...mas acredito que sim.Fokas

Cultura organizacional em O Senhor das Moscas (Parte I)

Por quê?
Porque achas que o deus da vadiagem vai fazer de ti um santo?
Não deixou morrer já o Sebastião Alba e o Luiz Pacheco?
A sério...se as mulheres existissem apenas
para baratinar os chuis.
Nós podiamos de novo ter três olhos azuis!
E quem sabe...um dia até voltar a
Amar.

Lord of the Flies - the beast as metaphor

Quelqu'en m'a dit...

terça-feira, 7 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Amigos da Onça...

Com um pouco atrasado é certo, mas cá ficam as minhas impressões da última sessão do CL.

“O velho que lia romances de amor” teve direito a quizz, umas perguntinhas sobre o livro que demonstraram que toda a gente tinha feito o trabalho de casa. Foi uma inovação sobre a qual gostaria de ter opiniões.

Quanto ao habitual debate que se seguiu, pareceu-me mais consensual que os anteriores, o que não é surpreendente.

Toda a gente se comove com um velho que lê romances de amor.

Ninguém pode deixar de abraçar a causa da defesa da Amazónia contra a ganância do homem branco.

Todos riem com a cena do dentista anarquista e com a figura suada do “Babosa”. Ninguém pode deixar de condenar e reconhecer essa figura noutros mini-tiranos que populam por aí…

Todos mostraram simpatia pela figura da onça, numa cruzada justa contra o homem civilizado, só divergimos no facto de ela ter ganho ou não essa luta… O mais optimistas dizem que sim, os mais pessimistas dizem que não, mas o que é certo e que todos a queriam ver como vencedora. E por isso achei por bem chamar a este post "Amigos da Onça"...

No final nos ouvidos de todos, ficou a ecoar a frase: “…os colonos devastavam a floresta construindo a obra-prima do homem civilizado: o deserto.”

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sepulveda Charmed




Assim passámos mais um serão em Portucalis...novos e velhos... que ainda adoram ler e falar de romances de amor! O livro de Abril será bem mais duro "O Deus das Moscas" de William Golding"...uma introdução à anatomia do mal antes que o M2 nos ponha a ler "As Benevolentes".



sexta-feira, 27 de março de 2009

TIMbralhos

Vamos celebrar o primeiro ano de actividade de uma comunidade de leitores de língua portuguesa que se instalou na primeira Livraria de LX de Portucalis. Hoje com alguns retoques a "CityLightsbookstore" (como foi rebaptizada a livraria do Imso) está instalada no antigo Morro do Pau da Bandeira...com acesso ao aterro da Ria (Promenade des Anglais) e ao bonito "calçadão" que faz inveja a qualquer Copacabana!





Uma imagem recente da montra da verdadeira em S. Francisco da Califórnia fundada há mais de cinquenta anos por Lawrence Ferlinghetti, local de orgulho e culto da cidade que a acarinhou.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O velho que lia romances de amor

porque é o livro de que vamos falar para a semana, e porque é tão cheia de verdade, ajustada a seja que sentido for, aqui vos deixo mais uma frase do livro de Luís Sepulveda.

"-Assim dizem que se passaram as coisas-dirá o compadre Nushiño cuspindo uma ultima vez antes de partir, porque os Xuar se afastam quando acabam uma história, evitando as perguntas que geram mentiras."

City Lights Bookstore

Um visita à nossa sede em S. Francisco

sexta-feira, 13 de março de 2009

Room of the One Candle

Atrás daquela janela...a ouvir ao longe os cães selvagens latindo no meu porão

segunda-feira, 9 de março de 2009

O Velho que Lia Romances de Amor



Vamos ler em Março a história que Luís Sepúlveda escreveu em 1989 e que a revista “Lire”, dirigida por Bernard Pivot, considerou um dos 20 melhores livros de 1992 e foi por outros considerado um dos melhores livros da década de 90.
Não é pois…. uma obra menor que seja comparável a qualquer outra. Se vendeu mais até hoje do que alguns autores “mainstream“… o que aliás não é crime nenhum…é porque o livro tem alguma coisa que mexe com os leitores.
Concebido como um romance de aventuras e como uma homenagem ao mundo amazónico, hoje permanentemente agredido, “O Velho que Lia Romances de Amor” conta a história de António Proaño, um homem que vive numa aldeia isolada, no interior da floresta e que um dia é forçado a partir em perseguição de um predador que assola as proximidades, atacando pessoas e animais.

Traduzida já em mais de 14 países, esta obra foi adaptada ao cinema. Sepúlveda dedicou este livro ao seu amigo Chico Mendes, já assassinado, um herói na defesa da Amazónia.

“O seu companheiro de vigia, via-o percorrer com a lupa os sinais arrumados no livro.
- É verdade que sabes ler?
- Alguma coisa.
- E que é que estás a ler?
- Um romance. Mas cala-te. Se falas, a chama mexe-se e mexem-se as letras.
O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar-se à margem.
- De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se do outro amor. Do que dói “.

(Luís Sepúlveda in, O Velho que lia romances de amor)

domingo, 8 de março de 2009

a propósito da "Mulher Mais Bonita do Mundo" e de outras coisas


(...)
estás tão bonita hoje.

quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

(...)


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

quarta-feira, 4 de março de 2009

Da ficção científica à realidade

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Mais uma vez os nossos leitores não me deixaram ficar mal. A ideia dos leitores progressivamente se tornarem também moderadores, resultou em cheio. A nossa Elora foi uma moderadora exemplar, manteve um debate animado com questões muito interessantes. Quem pensava que do Heinlein só se falaria de ficção científica, depressa percebeu que estava enganado.

A nossa moderadora captou de imediato a atenção de todos, quando se insurgiu contra o autor que no livro declarava que 90% das mulheres gostavam de ser violadas. Sexista? Preconceituoso? Que papel tinham afinal as mulheres no livro? Acabamos por concordar que o espírito hippie não tinha chegado à forma como as mulheres eram encaradas na obra... Mas outras questões se levantavam, como a religião e fé, em que acreditava o personagem principal? Nele próprio? Na racionalidade? Mike tentava "grocar" o que o rodeava. "Grocar"? Assimilar ou analisar profundamente deduzimos nós, e isso não é de um homem crente, mas de um ser pensante...



O debate foi um excelente exemplo de como se faz a ponte de um mero livro para a nossa própria realidade. A pretexto da postura do Michael Vallentine Smith, acabamos a discutir fé e racionalidade, o divino e o humano, valores e preconceitos, no fundo o que faz de nós quem somos.

É impossível reproduzir tudo o que foi dito, todas as citações que suscitaram debate. Por isso abrimos o blog e as caixas de comentários a todos os que estiveram presentes e que queiram partilhar as impressões de duas horas de discussão animada. Pela minha parte, vou destacar a citação do livro que acho, nos impressionou a todos:

“I grok people. I am people… so now I can say it in people talk. I’ve found out why people laugh. They laugh because it hurts so much… because it’s the only thing that’ll make it stop hurting.”


Como desenhar bonecas MIKADO

Experimentem !!! Arts and crafts para intelectuais.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Encontro CL amanhã às 22 horas

Aqui fica o resumo do livro "Estranho numa terra estranha", gentilmente cedido pela Elora Longu e que será o tema da sessão de amanhã:

A primeira missão tripulada a Marte não regressou à terra. Vinte anos depois a segunda missão encontra Valentine Michael Smith, nascido em Marte e único sobrevivente da primeira tripulação. Educado pelos marcianos, Smith regressa à Terra com capacidades milagrosas e uma filosofia marciana. As autoridades terrestres procuram controlar o acesso a este ser que, segundo as leis do Planeta que lhe deu origem é não só dono de Marte mas também herdeiro de uma colossal fortuna. Mike, o Homem de Marte, acaba por escapar com a ajuda da enfermeira Jill e inicia um processo de aprendizagem sobre a sociedade terrestre, que culmina na fundação de uma nova religião enfatizando o amor, a partilha e a responsabilidade de cada sobre a sua própria vida. Mike acaba por morrer para salvar a Humanidade, garantindo também a imortalidade da alma humana.

Mais informação nestes links:


http://www.war-ofthe-worlds.co.uk/stranger_in_a_strange_land.htm


http://fandomania.com/book-review-stranger-in-a-strange-land/


http://pt.wikipedia.org/wiki/Stranger_in_a_Strange_Land


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Os cem anos a grocar e a inventar futuros

A net tem destas coisas quando funciona... Aqui vão algumas linhas escritas há pouco tempo...pelos 100 anos do nascimento de um dos grandes mestres da FC no "Diário de Notícias".

Na sua esmagadora Encyclopedia of Science Fiction, Peter Nicholls chama a Robert A. Heinlein "de longe, o mais influente escritor da ficção científica americana moderna".

Poderíamos até ir mais longe. Heinlein, que nasceu faz hoje 100 anos, é, juntamente com o seu compatriota Isaac Asimov, e com o britânico Arthur C. Clarke (o único ainda vivo do trio), um dos três maiores escritores da história da ficção científica (FC). Mercendo plenamente, tal como os outros dois, o título de Grande Mestre que lhe foi concedido em 1975 pelos seus confrades da Science Fiction Writers of America.

Nascido em 1907, com o início do século XX e o grande ímpeto tecnológico que o havia de caracterizar, Robert A. Heinlein foi um dos escritores que mais contribuiu para a maturidade, sofisticação temática e para o aumento da qualidade literária da FC. Fê-lo através da solidez técnica e da plausibilidade inatacável da especulação científica dos seus enredos; da ênfase que dava ao elemento humano sem descurar a inventividade técnica; e da variedade de temas sociais, políticos, culturais, religiosos e civilizacionais que tratou, deixando sempre bem vincadas a sua personalidade individualista na melhor tradição americana, e o libertarismo das suas ideias.

Este "anarquista de direita", como bem o definiu o citado Peter Nicholls, que começou a sua vida muito mais à esquerda, foi tudo menos um conservador dentro do género, tendo abordado assuntos como o racismo, a discriminação, o totalitarismo, a religião ou a sexualidade, antes e com mais profundidade e pertinência do que a literatura mainstream.

Grande inventor de futuros que também remetiam ao presente e podiam estar ligados ao passado, Robert A. Heinlein era um clássico que sabia também ser moderno, inovador e iconoclasta, capaz de assinar tanto Soldado no Espaço (1959), o elogio da cidadania realizada através do serviço militar e uma grande narrativa de iniciação à vida através do combate, que lhe valeu o rótulo de "fascista", como Não Temerei Nenhum Mal (1970), em que um velho milionário faz transplantar o seu cérebro para o corpo de uma jovem mulher, que deixou perplexos os seus amigos e admiradores mais conservadores. E isto sem que as narrativas sacrificassem a legibilidade, perdessem o seu alto valor de entretenimento ou virassem panfletos.

Heinlein viu inclusivamente um dos seus livros mais conhecidos e aclamados, Um Estranho Numa Terra Estranha, de 1961, transformar-se numa obra de referência pelo movimento contracultural americano, alguns anos mais tarde, tornando-o num guru de pessoas cujas ideias e comportamentos execrava, devido à sua formação militar e às suas convicções ideológicas.

Grande apreciador de nomes pioneiros e fulcrais da FC e do fantástico como H. G. Wells, James Branch Cabell ou Edgar Rice Burroughs, mas também de escritores como Rudyard Kipling, Heinlein cunhou palavras que entraram no vocabulário inglês, coloquial ou técnico (caso de "grok" ou de "waldo"), e foi um dos primeiros autores de FC a triunfar comercialmente na era da literatura de massas, bem como o primeiro a levar o género das revistas especializadas para os títulos mainstream.

Vencedor de quatro Prémios Hugo e várias vezes votado "o maior autor de todos os tempos" em inquéritos a leitores do género, realizados por revistas como a Locus, Robert A. Heinlein deixou uma marca única, gigantesca e indelével na literatura de FC. A Heinlein Society (www.heinleinsociety.org) preserva o seu magistral legado para o mesmo futuro com o qual construiu a sua obra.

In Diário de Notícias


07-07-2007

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Próximo City Lights 2/03

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Este mês, dadas as pontes, mini-férias e festividades carnavalescas, resolvemos marcar encontro não na última segunda de Fevereiro, mas na primeira de Março, dia 2. A hora não muda: 22:00 na Livraria de Portucalis. O que também não muda é a publicação de um textozinho para aguçar a curiosidade:


Um Estranho numa terra estranha é talvez a mais célebre obra de ficção científica: a famosa Stranger in a Strange Land, verdadeira bíblia do underground norte-americano; análise poderosa e pungente do drama do verdadeiro marginal - do homem colocado à margem da humanidade pela sua cultura, pela diferente apreciação de valores, pela busca de uma pureza que contrasta com a cobiça, a ânsia do poder, a brutalidade da vida de todos os dias e de todos os «homens-bons».


Retirado da Introdução - Edições Argonauta.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Friends

Sweet dreams are made of this... Vamos ouvir...hoje a TSF em directo pelas 19:00!

Ao contrário do que nos tentam vender alguns novos "gurus" do SL quando escrevem manifestos e updates a olhar para o umbigo, aqui... mesmo sem o acordo prévio de todos os membros, procuramos publicar e divulgar as actividades e o trabalho dos outros "sims" e de todas as instituições que desenvolvem um trabalho cultural sério na SL. Na divulgação da língua e culturas de expressão portuguesa,independentemente das simpatias ou amizades que nos unem. Sem ter medo de ser diferentes assumindo o risco de desagradar a alguns. É essa a nossa escolha e é essa a nossa vontade!

O "City Lights " é um projecto que nasceu em Portucalis. É lá que mantêm o centro das suas actividades. O que não quer dizer que não se associe a outras iniciativas quando entender, desde que essas caibam nos objectivos "limitados" da sua missão...uma "comunidade de leitores"!

Quer juntar e não excluir, quer promover e valorizar (instituições e pessoas) aqueles que têm colaborado connosco. Foi nesse sentido que resolvemos convidar mais gente e instituições que nos têm apoiado com a sua boa vontade e o seu trabalho. É o que acontece hoje com a Academia Portucalis, A Livraria de Owl's e o Tagus/CCV,e o que esperamos que aconteça no futuro com todos os outros que se encaixem no projecto que queremos desenvolver . São bem vindos. (felizmente aqui o que vale são as pessoas e os lindos muito pouco).

Outras pontes e outros projectos vão-se realizar este ano na medida do possível "que o engenho e arte não nos abandonem"... mas sem nunca abdicar do "olho míssil" que nos orienta. Nâo queremos tudo... Mais vale fazer menos mas bem...é assim que somos e não estamos dispostos a concorrer a imediatismos mediáticos que não têm nada a ver com os nossos objectivos. Queremos apenas ser respeitados pelo nosso trabalho...e mais nada! Quem gosta fica..quem não gosta vai embora.

Estamos agora a ler "Um estranho numa terra estranha", do Robert Heinlein, o livro do mês para conversar em local e dia ainda por confirmar. Desta vez e sem grandes confusões...convidámos a Elora que fará a sua "estreia" como moderadora, juntando novos atributos e competências ao seu largo CV de formadora, de "bartender", amiga que todos conhecemos, aprendemos a apreciar e a respeitar.

Aos outros nossos amigos e companheiros nesta viagem fica apenas uma certeza...será sempre bem vindo quem vier por bem!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Viver é apenas um calafrio

Viver é apenas um calafrio

Sou velha por fora e nova por dentro
o coração ao centro
é um músculo desgraçado
mal feito e mal apelidado
bombeia apenas o sangue
ás vezes fica exangue
de tanta e tonta correria
não mudei a fisionomia
deste mundo em desvario
viver é apenas um calafrio
no rol eterno das gerações
sofro de más digestões
por via do noticiário
de más notícias é vário
esquece e esconde todo o bem
Esquece os poetas também.

Quem o diz é Manuela Nogueira.
Quem é ela?
Encontrei aqui uma óptima descrição:

Sobre esta poetisa,

"Ninguém hoje duvidará que os genes desempenham um papel essencial na nossa vida física e mental. Manuela Nogueira recebeu uma pesada herança. Pesada, porque avaliada a peso de oiro da genialidade. Porém, com modéstia exemplar nunca se quis valer desse privilégio ao publicar em 1962, o seu primeiro livro de contos e pouco depois mais dois livros destinados à infância."
Manuela Nogueira nasceu em Lisboa na R. Coelho da Rocha, onde está, hoje, a Casa Fernando Pessoa. Sim, de facto, aí viveu o Poeta, e foi aí, que durante os primeiros 10 anos da sua vida, Manuela Nogueira conviveu com Fernando Pessoa, afinal seu tio. E volto a recorrer a palavras de Maria Isabel Soares: Só nas últimas décadas, quando os estudos pessoanos ganharam maior incremento, é que Manuela Nogueira se viu convidada a testemunhar vivências familiares, o que tem feito através de conferências e encontros em bibliotecas municipais e em escolas, para um público adulto e juvenil. Igualmente a coligir documentos inéditos, quer literários quer iconográficos do Poeta, os quais vêm sendo publicados e muito contribuem para o conhecimento biográfico de Fernando Pessoa."

E esta senhora, "velha por fora e nova por dentro" vai juntar-se a nós num mundo virtual para falar sobre aquilo que todos querem ouvir: como foi viver com um dos melhores poetas de sempre da literatura portuguesa. Vai ser no próximo sábado, dia 7 de Fevereiro, às 15h, na ilha Babel Project II. Quem preferir pode sempre ouvi-la pessoalmente, na Biblioteca de S. Domingos de Rana, em Cascais, no mesmo dia, à mesma hora. E como não podia deixar de ser...seja na vida real ou virtual, estamos todos convidados.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ser ou não ser...

Começar por usar Shakespeare é sempre bem
Mas na realidade este post nem sequer é sobre Shakespeare...
É sobre um poema que me chegou às mãos como sendo de Neruda. O que não quer dizer que seja, pois circula por aí alguma celeuma sobre se a sua autoria não será antes da jornalista brasileira Martha Medeiros.
Seja como for a versão que chegou às minhas mãos foi em castelhano e gostei dela...
Por isso aqui vai.

Muere lentamente quien se transforma en esclavo del hábito, repitiendo todos los días los mismos trayectos.
Quien no cambia de marca, no arriesga vestir un color nuevo y no le habla a quien no conoce
Muere lentamente quien hace de la televisión su gurú.
Muere lentamente quien evita una pasión, quien prefiere el negro sobre blanco y los puntos sobre las “íes”a un remolino de emociones, justamente las que rescatan el brillo de los ojos, sonrisas de los bostezos, corazones a los tropiezos y sentimientos.
Muere lentamente quien no voltea la mesa cuando está infeliz en el trabajo,
quien no arriesga lo cierto por lo incierto para ir detrás de un sueño, quien no se permite por lo menos una vez en la vida, huir de los consejos sensatos.
Muere lentamente quién deja escapar un posible amor, con tal de no hacer el esfuerzo de hacer que éste crezca.
Muere lentamente quien no viaja, quien no lee, quien no oye música, quien no encuentra gracia en si mismo.
Muere lentamente quien destruye su amor propio, quien no se deja ayudar.
Muere lentamente, quien pasa los días quejándose de su mala suerte o de la lluvia incesante.
Muere lentamente,quien abandonando un proyecto antes de empezarlo, el que no pregunta acerca de un asunto que desconoceo no responde cuando le indagan sobre algo que sabe.
Evitemos la muerte en suaves cuotas, recordando siempre que estar vivo exige un esfuerzo mucho mayor que el simple hecho de respirar.
Solamentel a ardiente paciencia hará que conquistemos una espléndida felicidad.

e agora acrescento eu
viva la vida

sábado, 31 de janeiro de 2009

Boa noite Sr. Soares: o momento da verdade

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A tarefa não se adivinhava fácil. Gerar um debate interessante em torno da misteriosa figura do Sr. Soares? Caramba! Chega-se ao fim do livro sem conhecer de facto o Sr. Soares, vamos falar de quê? Dos heterónimos de Fernando Pessoa, quando a maioria das pessoas tem péssimas recordações dessas aulas de português. A culpa não será do Pessoa, mas debates literários e teóricos não devem fazer uma discussão muito animada, quando se quer um grupo de leitura informal...

Pronto, estava oficialmente preocupada. Felizmente estava enganada. É que o Sr. Soares estava rodeado de personagens tão interessantes, que depressa se gerou uma enorme conversa em torno dos defeitos e feitios destas figuras que desfilavam ao lado do protagonista. Desde o senhor que adorava comer, ao sonhador-viajante que era o António, à sua família, da pobre da irmã ao intragável cunhado, do primo brasileiro pé-descalço armado em ricaço e à sobrinha que só com cinco anos, revela um humor negro extraordinário; todos foram tema de conversa que deu pano para mangas. E aquela Lisboa onde viviam, tão bem caracterizada pelo autor, fez-nos imaginar a caminhar pela rua dos Douradores e a espreitar para o escritório do Sr. Soares. Lá estava o calendário da Senhora do decote com os seus lábios vermelhos e o barquinho de papel que ele fez para o António…

Ainda houve tempo para discutir qual dos Heterónimos do Pessoa, era mais normal, sem claro, conseguirmos chegar a conclusão alguma… Assim nos despedimos do enigmático Sr. Soares e passamos a discutir o senhor que se segue. Venha o “Estranho numa terra estranha”!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Um convite literário

Não posso dizer que não me surpreendeu. Primeiro, porque já fui muito mais devoradora de livros do que sou hoje. Depois, por ter confessado a um dos fundadores que não tinha lido os últimos livros dos encontros...Bem, confesso. Consegui não ler nenhum dos livros dos encontros City Lights. Gosto de lá estar a ouvir...mas raramente participo. E acrescento alguns livros na lista.
Mas sei que ainda não perderam a esperança por mim: os conselhos da linda Poulana ajudaram, e agora o convite que me fizeram para participar neste blog (e que muito agradeço) foi sem dúvida mais uma tentativa de me faze ver (novamente) a luz da literacia.

Por isso agradeço imenso ao Fokas e à Hopes o convite, prometo que vou (tentar) me portar bem e espero que dê frutos esta parceria literária.

E sem me querer alongar muito porque este post tem de ser, no mínimo produtivo, vamos ao que interessa.

Bem sei que os temas e livros debatidos até agora são muitos, e outros tantos os propostos. Por isso o meu desafio é outro. Sem querer ligar a grandes génios da literatura, a grandes autores conhecidos, a eternos autores e grandes obras. Que tal dizer aqui somente os 3 últimos livros que pegaram, com vontade de ler? Atenção que não vale folhear um livro na livraria. Também não valem revistas. Tio Patinhas, Tintim ou Lucky Luke pode ser. São livros de banda desenhada mas são livros :P

Quanto aos meus...pois tenho de pensar um bocadinho. Ultimamente uma série de sugestões fizeram com que começasse a ter uns quantos à cabeceira. Resta saber quais vou acabar de ler primeiro ;)...

Obrigado de novo Hopes e Fokas. Muitos parabéns pelo City Lights...

e boas leituras a todos!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um Estranho numa Terra Estranha

Um Ser Humano criado por marcianos retorna à Terra no inicio da idade adulta, para se deparar com costumes, valores e situações sociais que lhe são estranhas.
Para além de ser um excelente argumento de um filme rasca de ficção cientifica, este livro é também um dos clássicos da ficção cientifica, e empresta-nos a objectividade possivel para a análise de uma sociedade em mudança, no início dos anos 60.
Em contraste com as sociedades imaginadas de Huxley e Orwell, Heinlein traz-nos uma análise da sociedade em que viveu por um ser imaginado. Uma fantasia cientifico-hippie cheia de clichets e lamechices. Atrevem-se?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Boa noite, Sr. Soares - um resumo


Na véspera de mais um encontro City Lights, fica um resumo do "Boa Noite, Sr. Soares":


«Mário Cláudio escolheu para personagens alguns nomes que surgem no Livro do Desassossego, e passo a citar: «Se houvesse de inscrever […] a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório.»

Para narrador da história Mário Cláudio escolheu o moço do escritório, António, talvez por ser o mais novo, o mais ingénuo e por isso mais capaz de ser tocado por aquele ser estranho com quem convive à distância no escritório do patrão Vasques.

Em Boa Noite, Senhor Soares recebe um nome completo — António da Silva Felício — e é um jovem acabado de chegar da província, mais precisamente de Escalos de Cima, concelho de Idanha a Nova, para se empregar como aprendiz de caixeiro no escritório de um armazém de venda a retalho da baixa lisboeta, na prosaica Rua dos Douradores, onde o senhor Soares é tradutor.

Com a simplicidade própria de quem nada conhece, António tudo e todos observa com atenção. E limita-se a descrever o que presencia, como se o fizesse quase apenas para si próprio, sem emitir juízos. Desde o primeiro momento que o rapaz fica preso à figura do Senhor Soares que, segundo diziam os seus colegas, «embora não se distinga de qualquer outro sujeito, a verdade é que deu sempre mostras de ser um bocadinho esquisito»

No escritório todos sabem que escreve e que é poeta, e sem que António compreenda bem porquê, o certo é que goza de um estatuto especial. Incluindo para o patrão Vasques e para o guarda-livros, o senhor Moreira, que teoricamente ocupa o lugar de chefe do tradutor, mas aceita de bom grado a alcunha de Dom Barómetro que o senhor Soares lhe atribuiu devido à constante preocupação do guarda-livros com as condições atmosféricas.

Ao inserir-se no seu pequeno círculo de relações, António relata pormenores da vida de cada um, sobretudo aqueles que se vão tornando motivo de conversa dos outros. E desenrola perante o leitor um tecido urbano pardo, onde tudo remete para uma Lisboa murcha e tristonha, fechada sobre si mesma, onde nada acontece, nada é dramático, nem exaltante. Uma Lisboa onde o tempo não corre e, cito, «o dia seguinte seria de trabalho, igual aos da semana anterior, e da próxima» (p. 31), e em que uma mediocritas nada áurea todos invade. Todos não. Um ser escapa, um ser especial, que suscita a curiosidade do rapaz, por motivos que ele próprio não entende.

E à medida que avançamos na leitura, a fantástica mestria de Mário Cláudio vai-nos permitir (a nós, seus leitores) apreciar o modo como o rapaz se deixa tocar pela personalidade daquele enigmático senhor Soares. O leitor só tem acesso ao discurso interior do rapaz, que revela a sua total candura, a dificuldade em interpretar a sua própria experiência e os sonhos de viagens que não fará.

Gradualmente, a figura do Senhor Soares transforma-se no principal foco da atenção do jovem António e aquele adulto com quem nunca conversa, aquele senhor que só à saída dirige a palavra ao colectivo rapazes do escritório para lhes dar as boas noites, vai ser a figura de referência da sua juventude privada de projectos, de perspectivas e de formação.

(...) De repente, vira-se a página e passaram 52 anos. António recorda vagamente a cidade, o seu antigo local de trabalho, os sons que já não se ouvem… mas o que evoca com mais nitidez é o Senhor Soares, que tão mal conhecera e que afinal tanto o marcara. A sua vida é um arco entre a juventude e a velhice. Como na epígrafe de Shelley que abre o livro: «Youth will stand foremost ever» («A juventude permanecerá para sempre, acima de tudo»).»


Emílio Rui Vilar, publicado em 9.9.2008 na secção Recensões Críticas. Mário Cláudio — Boa Noite, Senhor Soares. Lisboa: Dom Quixote, 2008.

Entrevista a F. Pessoa

Palavras ditas por Mário Viegas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Boa Noite, Senhor Soares


"A minha maior surpresa aconteceu porém numa tarde em que estávamos apenas os dois no escritório, e o Senhor Soares saiu sem uma palavra, deixando-me sobre a secretária uma barquinho de almaço pautado, e com este nome no casco, desenhado a lápis, António.

("Boa Noite, Senhor Soares", Mário Cláudio, 2008).

"Absurdo

Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas faloas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O Absurdo é o divino."

("Livro do Desassossego", Bernardo Soares).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Numa cegueira branca...

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Diria que foi o momento alto do City Lights, a discussão em torno do "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago. Não só o debate ultrapassou a temática do livro, saltou para as nossas vidas e para a debilidade da nossa condição. Para além de uma conversa deliciosa, tiramos o máximo partido do SL e conseguimos recriar uma cegueira branca, com o precioso contributo do Imso, da Elora e da Poulana. Foi uma surpresa agradável para todos.

Um livro sobre a condição humana trazia forçosamente pano para mangas. Era inevitável questionar se a falta de ética e a desumanidade que começa a grassar entre os cegos, se devia apenas à catástrofe que se abateu sobre eles e à necessidade de sobreviver. Cada um de nós questionou o que faria para sobreviver, quais os nossos limites, o que seríamos capazes de sacrificar. Falou-se de dignidade e de impunidade. As escolhas das personagens foram criticadas por uns e elogiadas por outros.

Como o Narrador do livro, fomos juízes, advogados do diabo, desculpámos, julgámos e explorámos a consciência moral das personagens. Se o drama das personagens nos tocou, também nos emocionou a fragilidade do que damos por adquirido. E da condição humana, impressiona-nos o facto do gesto de maior compaixão no livro vir de um cão e não de um ser humano... Acho que todos exploramos os recantos da nossa alma, naquele dia, os nossos pontos fortes e as nossas fraquezas. Através de um livro e de uma boa conversa, ficou mais claro para todos o que é isso de ser humano...


Capitu Musica tema

Não é só ler o Dom Casmurro.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Capitu


"Saber ler e escrever, vestir casaco e gravata, ter estudado e vivido na cidade, já nada serve. Só os bruxos são capazes de perceber o que se passa" Mário Vargas Llhosa (Lituma nos Andes).


Mas posso escrever um post por exemplo: " A noite está estrelada e fria e nos teus olhos verdes, tiritam os astros lá ao longe." Posso até tentar escrever versos tristes esta noite: "Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já. Importa-me lá que o meu amor não a podesse guardá-la. A noite está estrelada e ela não está comigo mais.
Como aficionado ainda podia escrever outras frases, umas linhas de despedida para a Marcia, dignas de um aficionado, de um aficionado da loucura. "Vou-me embora, querida, porque noto que envelheço e não posso suportá-lo. Além disso acho que estou acabado e as minhas depressões acentuaram-se muito ultimamente". (fingo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo...é tudo mentira).

Mas se não tivesse ido lá... a Marcia não me deixaria voltar a casa. Depois de tantos anos, ali estava no mesmo local, desta vez ao som do Bob Dylan.
- Estás aqui há muito? Há uns sete meses...respondi-lhe mas durante esse tempo numa livraria...descobrem-se muitas coisas. Estava à espera que viesses.
- Como é ele o Senhor F. ( o dono)? Ele vem à loja de vez em quando?
- Normalmente vem todos os dias - respondi-lhe. (Eu já sabia quem ela era... não devia ter mais do que 30 anos).
- Sou a Capitu. Ele escreveu-me e pediu-me para aparecer... Parece que vão ler no "City Lights" o Dom Casmurro na SL.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Francesinhas


Teria sido mais simples se tivessem escolhido a Duras. "O Amor". Sim...esse eu li.... como devorei depois todos os outros livros dela. Sabes Fokas... quando fui para o Porto tinha 15 anos. Podiamos entrar em Belas Artes com essa idade. A idade dos sonhos...

Ou a Françoise Sagan...a minha mãe entre os livros de medicina tinha escondido o "Bonjour tristesse" com uma dedicatória enigmática que só entendi muitos anos depois . "Até ao fim do mundo"...Nazaré, Verão 1955.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

"A obra ao Negro"...ou as saudades de Isabella

Aqui começámos a delirar...Não sei quem é a Yourcenar -disse ela. Pertenço a uma geração que já não lê francês... A minha sócia tem alguma razão. Estamos a assistir a um novo paradigma cultural neste início do século XXI. A vitória dos Obamas Bin Socrates.

A literatura portuguesa começou a guinar depois de 1978, ano em que morreu Jorge de Sena e Ruy Belo. Alguns alunos da Faculdade de Letras de Lisboa convocavam para o bar uma conferência com o falecido há umas semanas nos Estados Unidos...mas que mesmo assim teve público! Nesse ano foram publicadas pelaa primeira vez as obras completas do António Maria Lisboa e redescobriamos "a Intrevenção Surrealista" com um lag de 30 anos.

O Carlos de Oliveira (sim... o da "Abelha na chuva "daquele filme horrível do Fernando Lopes) publicava então o "Finisterra". O Saramago ainda não tinha tinha publicado os "Levantados do chão" mas estava fechado o trajecto oficial do Neo-realismo em Portugal.

O Eduardo Lourenço iniciava com "o Labirinto da Saudade" a psicanálise mítica do povo português.

O Francês tinha deixado de ser a primeira língua estrangeira obrigatória no sistema de ensino em Portugal.

Pertenço a uma geração ainda marcada pela palavra de ordem "sur le pavé la plage", primeira língua que aprendi na escola (o inglês era débil..e resumia-se a umas canções...she loves me , o alemão mínimo...meine liebe Anette...e o castelhano inexistente...mira guapa que és muy preciosa...) não entendo este anti-francesismo actual que olha o umbigo e se crê no centro da modernidade. A França representou para mim o encontro, a assimilação e a diversidade...uma cultura francófona que ultrapassava largamente as dimensões do hexágono gaulês. Há autores cuja notoriedade passou por escreverem em francês, de Kundera a Tahar Ben Jelloun...como ainda recentemente com o americano Jonathan Littell que escreveu "As benevolentes" na língua de Voltaire.

A Hopes alegando falta de tempo passou-me a bola... Moderas tu..não foi afinal outro dos livros da tua vida? Pas de problem Komrad! Se houve livros que li mais que duas vezes na vida... um deles foi as "Memórias de Adriano" revelada tardiamente por um amigo especial.
Uma noite sózinho em Bruxelas... e não parava de chover... toca o telefone.
- Olá..lembraste de mim? Encontrámo-nos na praia este Verão. Sou primo do... Queres vir beber um copo a minha casa? Já tentei subir as paredes...já me tentei atirar do quarto andar ..mas tenho medo...estou muito sózinho. Começou aqui outra nova amizade do Corto Maltese e a descoberta da Marguerite Yourcenar.

Mas um dia vou voltar para fazer de novo o elogio da bela Marguerite Yourcenar que era belga como o Brel, do Godard que era suíço, da Isabelle Adjani e da Carla Brunni que como toda a gente sabe são francesas.

Mas para quem quiser mesmo conhecer “A obra ao negro”, de Marguerite Yourcenar, fica aqui um resumo bem feito, por Luís Miguel Queiroz.

"O percurso de Zenão, no pano de fundo da Europa da primeira metade do século XVI. Uma obra-prima em nada inferior a “Memórias de Adriano”, o romance que celebrizou Yourcenar.
Poucos dias antes de rebentar, em Paris, o movimento de contestação estudantil de Maio de 1968, aparecia nas livrarias francesas um livro intitulado “A Obra ao Negro”. No meio de uma tal agitação, que tomava as ruas e monopolizava os “media”, parecia haver bons motivos para duvidar do êxito de um romance de fundo histórico, cuja acção, narrada numa escrita exigente e quase anacronicamente “clássica”, decorria no distante século XVI.
A própria autora, Marguerite Yourcenar, numa carta dirigida, em 1964, ao editor Gaston Gallimard, confessava-se apreensiva: “Pensei escrever as ‘Memórias de Adriano’ para dez pessoas, e enganei-me. Creio neste momento terminar ‘A Obra ao Negro’ para dez pessoas e é muito possível que não me engane.”
Na verdade, voltou a enganar- se. Em apenas dois meses, a Gallimard esgotou duas tiragens, num total de 40 mil exemplares. Os críticos, descontadas raríssimas excepções, não lhe pouparam elogios. Muitos falaram de “obra-prima”. Apenas um ou outro se lamentou de “falta de calor”. O que talvez possa ser lido como um involuntário elogio, já que é justamente pela sua deliberada e impiedosa rasura de todo o sentimentalismo que este livro consegue emocionar tão profundamente os seus leitores.
Constituindo um espantoso fresco da Europa do século XVI — das intrigas políticas às querelas religiosas, da filosofia à vida quotidiana, da cultura literária às discussões científicas —, “A Obra ao Negro” é também a história pessoal de Zenão, o filho bastardo de um grande negociante de Bruges, cujo pai, que não chega a reconhecê-lo, era ainda aparentado com a poderosa família dos Médicis.
Médico, filósofo e alquimista, podem ver-se na vida de Zenão, embora o romance não o assuma expressamente, as etapas da Grande Obra alquímica, com os seus momentos de decantação, dissipação e sublimação. O objectivo da alquimia, reclama a tradição, era o de transformar o próprio alquimista. A transmutação dos metais constituía apenas o seu fito aparente, a face visível de uma operação interior. Logo no primeiro capítulo deste romance, sintomaticamente intitulado “O Longo Caminho”, Zenão despedese de um primo, dizendo-lhe: “Há alguém à minha espera. Vou até lá.” Pergunta o interlocutor: “Quem é?” E Zenão responde: “Hic Zeno. Eu mesmo.”
No entanto, desenganem-se os fãs de Paulo Coelho, este não é um desses romances que pisca o olho aos fascinados pelo oculto. Zenão, sem deixar de ser o produto complexo do século em que vive, prefere investigar “os movimentos diastólicos e sistólicos do coração”, do que perder o seu tempo a discutir os atributos de Deus ou a procurar uma saída no labirinto alegórico dos filósofos alquímicos.
O pintor e cientista visionário Leonardo Da Vinci, o cirurgião Ambroise Paré, o anatomista Vesálio, o médico e alquimista Paracelso e, talvez mais do que todos, Erasmo de Roterdão, são algumas das figuras históricas com as quais poderemos ser tentados a identificar Zenão.
Num apêndice que redigiu para o livro, Yourcenar admite estas e outras influências, mas alerta que não pretendeu “compor mecanicamente uma personagem sintética, coisa que nenhum romancista consciencioso aceita fazer”. De facto, poucas personagens na história da literatura conseguem ser tão “reais” como Zenão.
Se quisermos resumir este livro, o melhor ainda será citar a própria Yourcenar, na já referida carta a Gallimard: “Trata-se da vida movimentada, mas também meditativa, de um homem que faz total tábua rasa das ideias e preconceitos do seu século para ver depois onde o seu pensamento o conduzirá livremente.”

A Kua que tinha proposto este livro para discussão não apareceu. Mas temos fotos para mostrara que a sessão na Academia Portucalis que nos recebeu..estava cheia de leitores!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O Estrangeiro, Camus



O JLPeixoto não nos deixou em paz. O livro que escolhemos para o debate do mês seguinte por sugestão do Aggio, foi "O Estrangeiro" de Albert Camus. Com o meu acordo incondicional, já que era um dos livros da minha vida.
Talvez por isso...e para se vingar...escreveu sobre o que andava a fazer depois de ter lido certos livros franceses. ..até porque não terminámos a leitura nem o debate sobre "Uma casa na escuridão".
"Fui ver se os rapazes que jogavam à bola em frente à oficina do meu pai já tinham chegado. Fui na minha bicicleta azul. Nessa altura, a corrente saltava com muita frequência e sujava as mãos todas de óleo para voltar a colocá-la. Cada vez que acontecia, eu pensava que tinha de levá-la a alguém que a arranjasse definitivamente, a apertasse. Quando terminava de colocá-la, esquecia-me desse propósito e pensava que, desta vez iria ficar mais tempo sem saltar e, depois, quase milagre, iria arranjar-se sózinha. Os quase-milagres custam muito a acontecer...."

"Não vou dizer aquilo que fiz. tenho vergonha. Não devia ter, mas tenho. Eu tinha treze anos e estava sozinho no meu quarto. Toda a gente já fez aquilo que eu fiz naquele momento. Se alguém se levantar a dizer que não o fez, tenho pena dessa pessoa...Até podia contar aquilo que fiz depois daquilo que fiz imediatamente após concluir a leitura de "O Estrangeiro", de Camus, mas acredito que isso já não vos interesse tanto. Parece-me que gostariam de saber o que fiz logo depois de ler "O Estrangeiro", de Camus, afinal esse é o título e o pressuposto deste texto, mas isso não vou dizer."

JL Peixoto, "Verdades quase verdadeiras" in JL, 17-30 dezembro 2008